O consolo da pintura – 2011


O Consolo da Pintura

Definir o que constituía uma pintura costumava ser um exercício bastante elementar: tinta sobre uma superfície plana e circunscrita – tela ou madeira. Simples. Actualmente, esta definição parece obsoleta ou, pelo menos, bastante incompleta. Deixou de ser possível afirmar o que é pintura utilizando estes termos: o Cubismo, por exemplo, demonstrou-nos que é possível substituir a tinta por outros materiais, como recortes de jornal, continuando a pintura a ser pintura; e também a superfície plana foi há muito questionada (basta pensarmos nos quadros-relevo de Picasso ou nas obras de Rauschenberg). O que faz, então, uma pintura ser uma pintura? Esta questão, que foi talvez das mais centrais e centralizadores de toda a epopeia modernista, continua a ocupar um lugar determinante nas preocupações artísticas contemporâneas.
Num texto seminal da historiografia da arte, The End of Art, Arthur C. Danto defendeu a morte da arte enquanto definida por critérios rígidos e centrados em torno de uma narrativa evolutiva de progresso. Foi este teórico quem, mais tarde, avançou com a expressão “arte-depois-da-morte-da-arte”, cujas exactas definição e estrutura são, a seu ver, ainda desconhecidas. O surgimento deste conceito não equivale à exaustão da arte ou, em particular, da pintura, mas exactamente ao inverso. É precisamente a vitalidade que se testemunha na pintura, a sua capacidade de se questionar a si mesma e, de forma inigualável, de se reinventar que levou Danto a criar esta conceptualização. Afirma Yve-Alain Bois, no seu livro Painting: the task of mourning, que, “se alguma pintura está por vir, se novos pintores estão ainda por conhecer, eles surgirão pelos caminhos menos esperados.”
São estes ‘caminhos menos esperados’ que são apresentados nesta exposição. uma exposição sobre a pintura mas sem pintura. Sobre a história da pintura mas profundamente actual. Uma exposição de canibalismo histórico, uma vez que a maior parte das obras aqui apresentadas (umas de forma mais directa do que outras) se apropriam de obras ou momentos específicos da história da pintura.
O título reflecte a ideia de que a longa tradição a pintura oferece ao artista contemporâneo (quer este seja pintor, escultor, fotografo…) um consolo de não se sentir só, ou desamparado. Há atrás de si uma longa lista de artistas e de obras que proporcionaram o lugar que hoje ocupa.
Disse Duchamp que a Arte é um jogo entre todas as pessoas e todas as épocas. E é exactamente este exercício que se joga nas salas do Espaço Tranquilidade.

Filipa Oliveira

Espaço Arte Tranquilidade – Rua Rodrigues Sampaio nº 95

Até 7 de Abril, o Espaço Arte Tranquilidade, em Lisboa, recebe « O Consolo de Pintura », mostra colectiva de sete artistas

Trabalhos que « se apropriam de obras ou momentos específicos da história da pintura ». É assim que Filipa Oliveira, curadora da exposição « O Consolo de Pintura », define a série de trabalhos de sete artistas das galerias Baginski, Filomena Soares e Miguel Nabinho, que pode ser vista até 7 de Abril no Espaço Arte Tranquilidade. Ana Jotta, Carlos Correia, Freek Wambacq, João Paulo Serafim, João Pedro Vale, Miguel Ângelo Rocha e Rodrigo Oliveira são os artistas representados.